Creio que o encontro com as nossas próprias raízes pode acontecer das maneiras mais inimagináveis — e mais de muitas vezes na vida. Raízes, a meu ver, podem transcender terras, pessoas e línguas, e ser encontradas em recantos (físicos ou não) inusitados. E esse encontro é sempre algo no mínimo místico e confortador: uma sensação de pertencimento ou "já estive aqui". Ou: se me perder no mundo, há terras que são minhas.
O Rio nunca foi meu, apesar de já ter ido ao Rio mais de cem vezes. O Rio é dos meus pais, de todos os sangues também gaúchos, mineiros e estrangeiros que correm em mim, e dos cariocas de fala chiada. Então escrevo sobre o Rio e suas discrepâncias com freqüência, e ele continua onde sempre esteve, abrigando uma das sete maravilhas do mundo, lotado de turistas deslumbrados, me fazendo lembrar de viagens cansativas e medo de ser assaltada.
Nos últimos dias, no entanto, a floresta da Tijuca de meu pai, o colégio Sion de minha mãe e a sétima maravilha abriram-me os braços de forma distinta. E se transformaram em novas raízes. Foi uma questão de parar e olhar — uma mirada um pouco mais atenciosa, talvez, misturada a uma ansiedade de simplesmente só ver e reconhecer os sítios por onde passam algumas memórias que não são minhas.
Do morro da Urca dá pra ver a Marina da Glória e — ainda não sei me localizar precisamente na capital fluminense — acho que um pedaço da igreja onde eles se casaram. Outeiro da Glória. É isso? (Tantos são os pontos de "melhor observação" do Rio que não dá para saber, a não ser que se more lá). O Outeiro, de qualquer forma ou seja qual for o ângulo, parece se erguer quase acima da atmosfera quente de maresia daquela cidade, insistindo em me fazer lembrar que ali uma vez o amor foi celebrado. Ao menos uma vez, que eu saiba, evocando as imagens em preto e branco guardadas no meu armário belo-horizontino.
E todos os recantos históricos — sentar-se à mesa de JK na Colombo, circular pelos imponentes corredores do Palácio Tiradentes — não deixam que caia no olvido o passado ilustre de capital federal da cidade. Memórias coletivas, no caso, também minhas, brasileira que sou. E imagino jovens os meus pais cariocas passando por ali sem dar a mínima para o belo cenário, para o número exato de espécimes do Jardim Botânico, para as pedras que foram trazidas de Portugal para o mosteiro de São Bento — entretidos que estavam com os namoricos e as sorveterias.
11.12.07
28.11.07
Lo´ Vino
No se si fue por lo vino
No se si fue por su boca
Pero entre tanto tango
Encontré su ropa
Junto a mi ropa
Ay lo vino
Seguro que fue lo vino
Seguro que fue
Lo vino
No se si fue por lo vino
No se si fue por su aliento
Pero entre tanta y tanta
Tengo su ombligo
Junto a mi cuerpo
Y así volando en la gloria
Y aterrizando en la ruina
Fuí cayendo y cayendo
En la red de esas medias asesinas
Ay lo vino
Seguro que fue lo vino
Seguro que fue
Por lo´ vino
(Texto e música de Miguel Di Genova, com inserções de Gardel)
Ê vontade de sair dançando.
--
Vino também para comemorar o lançamento do livro "Sombras", no dia 9 de dezembro, em que 30 escritores daqui de Minas reúnem suas histórias sobre a morte.
Eu entrei com o conto "Tango", ambientado nas belas calles portenhas que tanto me inspiram.
Muito satisfeita com o projeto!! http://www.letrasgerais.com.br/
Espero que gostem e compareçam ao lançamento.
No se si fue por su boca
Pero entre tanto tango
Encontré su ropa
Junto a mi ropa
Ay lo vino
Seguro que fue lo vino
Seguro que fue
Lo vino
No se si fue por lo vino
No se si fue por su aliento
Pero entre tanta y tanta
Tengo su ombligo
Junto a mi cuerpo
Y así volando en la gloria
Y aterrizando en la ruina
Fuí cayendo y cayendo
En la red de esas medias asesinas
Ay lo vino
Seguro que fue lo vino
Seguro que fue
Por lo´ vino
(Texto e música de Miguel Di Genova, com inserções de Gardel)
Ê vontade de sair dançando.
--
Vino também para comemorar o lançamento do livro "Sombras", no dia 9 de dezembro, em que 30 escritores daqui de Minas reúnem suas histórias sobre a morte.
Eu entrei com o conto "Tango", ambientado nas belas calles portenhas que tanto me inspiram.
Muito satisfeita com o projeto!! http://www.letrasgerais.com.br/
Espero que gostem e compareçam ao lançamento.
10.7.07
To a friend
Gato, janela, incenso
Parede, retrato, estante
Aqui sou imperatriz, neste espaço único que você teve licença para invadir.
Almofada, lustre, quadro
Tudo é branco, preto ou vermelho.
E são só duas taças para as duas bocas gêmeas.
Seu corpo apreciou minha cama
Grande e soberana no quarto onde vivo - quando você não está.
Perfume, vela, vaso
Tapete, planta, pó
O pão e o leite, o sono e o beijo.
Você entra quando quer.
O armário e o gato, a manhã e a cama.
Quando amanhece, adeus, olhos do Oriente
(Desde aqui dentro deste meu micro-universo onde você não mais habita
Além do espelho).
Parede, retrato, estante
Aqui sou imperatriz, neste espaço único que você teve licença para invadir.
Almofada, lustre, quadro
Tudo é branco, preto ou vermelho.
E são só duas taças para as duas bocas gêmeas.
Seu corpo apreciou minha cama
Grande e soberana no quarto onde vivo - quando você não está.
Perfume, vela, vaso
Tapete, planta, pó
O pão e o leite, o sono e o beijo.
Você entra quando quer.
O armário e o gato, a manhã e a cama.
Quando amanhece, adeus, olhos do Oriente
(Desde aqui dentro deste meu micro-universo onde você não mais habita
Além do espelho).
1.7.07
A fonte porteña
Uma viagem sozinha; outra viagem sozinha, daquelas que fazem a cabeça borbulhar no avião/ônibus/barco de volta pra casa.
Como jornalista curiosa e apaixonada, impossível se desligar das notícias e da possibilidade de farejar algo a respeito de que se pode escrever. Mas naqueles dias, eu experimentava a sensação de isolar-me do mundo se quisesse, entre imensas avenidas de passantes desconhecidos e livrarias absurdas. Podia escolher, silenciosamente, se queria entrar numa loja de souvenires ou numa cafeteria decadente, se pararia para tirar uma foto ou me sentaria em uma praça ensolarada, onde ninguém me encontraria, a não ser que eu quisesse. E eu não andava querendo muito.
Mas o telefone chamou, chamou, nesse momento em que eu começava a imaginar como era a vida sem ele. O telefone chamou com insistência, e uma voz desconhecida disse “hola”, oferecendo um possível tema de artigo ou reportagem. Difícil dizer não, o dever sempre chama, afinal. Preguiçosamente, anotei um endereço e fui. Meu interlocutor havia dito que eu não teria dificuldades em identificá-lo – já que éramos desconhecidos – , por causa de sua “moto extravagante”. De fato. Em uma avenida de movimento considerável, vi de longe o belo triciclo old style que chamava a atenção.
“Mucho gusto, Antonio”, me disse, antes de convidar-me a subir na garupa, eu já com um capacete na cabeça, comentando sobre como o dia andava belo apesar do vento frio. Antonio dirigia rápido e aproveitávamos quando o semáforo ficava vermelho para conversar sobre a cidade. Era emocionante quando o vento gelado encontrava brechas no meu casaco bege e se fazia entrar em contato com a minha pele.
Antonio, nativo porteño, também jornalista, me levaria a uma feira que, segundo ele, seria verdadeiramente típica, ao contrário dos pontos turísticos que eu já havia decorado na metrópole. Ao nos afastarmos do centro de Buenos Aires, a paisagem se tornava diferente, e o sol de quase meio-dia iluminava ruas de paralelepípedos que me faziam dar pequenos pulos na garupa da moto. Os grandes prédios davam lugar a armazéns antigos e casinhas de parede descascada, que outrora haviam abrigado frigoríficos sangrentos e não muito limpos.
No caminho para a “Feria de Mataderos”, nosso destino, Antonio me contava sobre como saiu da Patagônia para a capital, e sobre os vários empregos que teve, desde radialista a servidor público na área cultural – de tudo um pouco sobre uma experiência incomum e vasta.
Ao chegarmos, a cultura dos povos das Províncias pululava em todas as tendas, e os couros, cheiros, pedras, peças de barro e cobertores de llama compunham um quadro alegre de interior. Um grupo tocava bailes tradicionais para os poucos casais que se aventuravam a arriscar passos “gauchos”, e a atmosfera era acolhedora.
Antonio conhecia a todos e não parava de acenar. Perguntei a ele como isso era possível. Ele respondeu, com naturalidade, que participava de um programa de TV local. “Ah, uma celebridade”, pensei.
A história da minha fonte era realmente boa e eu me arrependi de ter pensado que talvez fosse melhor dar uma volta pelo museu de Belas Artes naquele dia. Ele tinha tanto a dizer, e eu amaldiçoei não ter levado meu gravador. Pedi licença e comecei a anotar desesperadamente – ele falava rápido e tudo era interessante – , misturando português e espanhol, num pequeno caderno que carregava para todos os lados. Tantas siglas escritas correndo que até hoje não consegui decifrar, a propósito.
Passamos o dia juntos, eu e aquele desconhecido falante que às vezes corrigia conjugações verbais do meu castellano. Numa cafeteria ao fim do dia – porteños precisam coroar as coisas com café – , Antonio quase chorou ao descrever suas filhas, e como uma delas havia dito que “o amava como uma tormenta”. O jornalista-motoqueiro também começou a rabiscar um mapa, em meu bloco, da viagem que queria fazer de moto pelas Cordilheiras dos Andes. E convidou-me a subir em sua garupa para essa loucura.
E o mais estranho foi que naquele exato momento, naqueles talvez 15 minutos que passamos ali, cogitei aceitar. Largar tudo, botar uma câmera debaixo do braço, e partir em jornada com um total desconhecido. Coisa de filme mesmo. E Antonio falava sem parar da vida, com paixão, e das pessoas, com esperança, e das suas filhas, com ternura. E eu me sentia como uma planta que anseia por ser regada, sedenta por suas palavras lindas e insanas, que me fizeram questionar para sempre uma porção de pilares certinhos que eu tinha dentro de mim. Antonio me perguntava quem era eu, o que eu fazia lá, o que eu queria. E eu gaguejava. Saberia responder?
*
Deixou-me em casa após passarmos por uma rodovia já no fim da tarde, a 90 km/h que faziam o vento se tornar cortante em cima da moto. Nunca mais o vi. Às vezes, envia o material jornalístico prometido. Dois dias depois, deixei a Argentina pensando e rindo sozinha, que aquele homem jamais vai me levar para a Cordilheira em seu veículo old style. Mas - que bom que o havia conhecido.
Como jornalista curiosa e apaixonada, impossível se desligar das notícias e da possibilidade de farejar algo a respeito de que se pode escrever. Mas naqueles dias, eu experimentava a sensação de isolar-me do mundo se quisesse, entre imensas avenidas de passantes desconhecidos e livrarias absurdas. Podia escolher, silenciosamente, se queria entrar numa loja de souvenires ou numa cafeteria decadente, se pararia para tirar uma foto ou me sentaria em uma praça ensolarada, onde ninguém me encontraria, a não ser que eu quisesse. E eu não andava querendo muito.
Mas o telefone chamou, chamou, nesse momento em que eu começava a imaginar como era a vida sem ele. O telefone chamou com insistência, e uma voz desconhecida disse “hola”, oferecendo um possível tema de artigo ou reportagem. Difícil dizer não, o dever sempre chama, afinal. Preguiçosamente, anotei um endereço e fui. Meu interlocutor havia dito que eu não teria dificuldades em identificá-lo – já que éramos desconhecidos – , por causa de sua “moto extravagante”. De fato. Em uma avenida de movimento considerável, vi de longe o belo triciclo old style que chamava a atenção.
“Mucho gusto, Antonio”, me disse, antes de convidar-me a subir na garupa, eu já com um capacete na cabeça, comentando sobre como o dia andava belo apesar do vento frio. Antonio dirigia rápido e aproveitávamos quando o semáforo ficava vermelho para conversar sobre a cidade. Era emocionante quando o vento gelado encontrava brechas no meu casaco bege e se fazia entrar em contato com a minha pele.
Antonio, nativo porteño, também jornalista, me levaria a uma feira que, segundo ele, seria verdadeiramente típica, ao contrário dos pontos turísticos que eu já havia decorado na metrópole. Ao nos afastarmos do centro de Buenos Aires, a paisagem se tornava diferente, e o sol de quase meio-dia iluminava ruas de paralelepípedos que me faziam dar pequenos pulos na garupa da moto. Os grandes prédios davam lugar a armazéns antigos e casinhas de parede descascada, que outrora haviam abrigado frigoríficos sangrentos e não muito limpos.
No caminho para a “Feria de Mataderos”, nosso destino, Antonio me contava sobre como saiu da Patagônia para a capital, e sobre os vários empregos que teve, desde radialista a servidor público na área cultural – de tudo um pouco sobre uma experiência incomum e vasta.
Ao chegarmos, a cultura dos povos das Províncias pululava em todas as tendas, e os couros, cheiros, pedras, peças de barro e cobertores de llama compunham um quadro alegre de interior. Um grupo tocava bailes tradicionais para os poucos casais que se aventuravam a arriscar passos “gauchos”, e a atmosfera era acolhedora.
Antonio conhecia a todos e não parava de acenar. Perguntei a ele como isso era possível. Ele respondeu, com naturalidade, que participava de um programa de TV local. “Ah, uma celebridade”, pensei.
A história da minha fonte era realmente boa e eu me arrependi de ter pensado que talvez fosse melhor dar uma volta pelo museu de Belas Artes naquele dia. Ele tinha tanto a dizer, e eu amaldiçoei não ter levado meu gravador. Pedi licença e comecei a anotar desesperadamente – ele falava rápido e tudo era interessante – , misturando português e espanhol, num pequeno caderno que carregava para todos os lados. Tantas siglas escritas correndo que até hoje não consegui decifrar, a propósito.
Passamos o dia juntos, eu e aquele desconhecido falante que às vezes corrigia conjugações verbais do meu castellano. Numa cafeteria ao fim do dia – porteños precisam coroar as coisas com café – , Antonio quase chorou ao descrever suas filhas, e como uma delas havia dito que “o amava como uma tormenta”. O jornalista-motoqueiro também começou a rabiscar um mapa, em meu bloco, da viagem que queria fazer de moto pelas Cordilheiras dos Andes. E convidou-me a subir em sua garupa para essa loucura.
E o mais estranho foi que naquele exato momento, naqueles talvez 15 minutos que passamos ali, cogitei aceitar. Largar tudo, botar uma câmera debaixo do braço, e partir em jornada com um total desconhecido. Coisa de filme mesmo. E Antonio falava sem parar da vida, com paixão, e das pessoas, com esperança, e das suas filhas, com ternura. E eu me sentia como uma planta que anseia por ser regada, sedenta por suas palavras lindas e insanas, que me fizeram questionar para sempre uma porção de pilares certinhos que eu tinha dentro de mim. Antonio me perguntava quem era eu, o que eu fazia lá, o que eu queria. E eu gaguejava. Saberia responder?
*
Deixou-me em casa após passarmos por uma rodovia já no fim da tarde, a 90 km/h que faziam o vento se tornar cortante em cima da moto. Nunca mais o vi. Às vezes, envia o material jornalístico prometido. Dois dias depois, deixei a Argentina pensando e rindo sozinha, que aquele homem jamais vai me levar para a Cordilheira em seu veículo old style. Mas - que bom que o havia conhecido.
28.8.06
Setembro
Precisava tirar férias. Férias das férias. Já estava sem trabalhar havia dois meses e aquilo a exasperava. Acordava ao meio-dia e passava seis horas seguidas na internet. Leu todos os livros que ainda não tinha lido e resolveu que viajar seria bom.
Descobriu um lugarejo numa ilha, incrustado no meio das pedras e da areia. Construído com madeira, longe de tudo, o dono era pescador e cobrou baratinho. Era lá mesmo.
Maria botou meia dúzia de roupas leves na mala, pegou um barco que deu a maior volta para chegar lá e desembarcou no local.
Não esperava tanta rusticidade - olhou em volta e havia, além da pousada, uma igreja evangélica caindo aos pedaços e um pequeno grupo de casebres de pescadores. A urbana Maria ficou cheia de areia no tênis e no jeans que vestia ao descer do barco e caminhar até seu quarto, pois não havia asfalto. Perfeito.
O sol apareceu por trás das nuvens e surpreendeu o tedioso clima "setembrino", que Maria esperava chegar todos os anos.
Despiu-se das preocupações, da internet viciante, do celular e das entrevistas de emprego e deitou na areia.
Bronzeou os braços e o colo numa canoa. Remou pela primeira vez na vida e mergulhou perto de paredes de corais e em si mesma por um tempo.
Normalmente, odeia vento. Mas permitiu-se gostar daquele vento, daquele pedaço do mundo onde era ainda melhor ter os cabelos despenteados.
Caminhou na mata que se estendia infinitamente atrás das casas de pescadores, revelando uma sequência interminável de outras praias.
Ficou em silêncio por dias, um silêncio confortável que era facilmente preenchido por ruídos que não incomodavam. Pássaros, barcos, risadas de pescadores, água batendo em pedra.
Catou uma concha alaranjada, bonita, que o mar jogou aos seus pés enquanto andava pela orla num fim de tarde. Pensou em alguém que mereceria aquela concha. Pensou que seria romântico dá-la a alguém. "Ninguém", decidiu-se, e guardou na mochila.
Em sua última noite no paraíso, Maria jantou cedo a comida feita pela esposa do pescador, que consistia em peixe (inteiro, com olhos entumescidos e espinha), arroz, salada e no melhor feijão que havia provado na vida.
À noite, os pescadores usavam um gerador que iluminava apenas as casas e o mar ficava negro, revelando sua imponente presença através dos barulhos e de pequenos reflexos que a tímida lua setembrina doava, às vezes.
Um grupo de jovens pescadores passou enquanto a solitária Maria sentava num degrau, após o jantar, e bebia alguma coisa de coco. Carregavam redes e iam dormir. Maria pensou que talvez nunca tivesse conseguido dormir tão cedo, rindo intimamente, e olhou de soslaio para um dos pescadores que a havia praticamente comido com os olhos mais cedo, quando ela ainda estava de biquíni. A moça achou graça.
Três segundos depois, já estava imersa em seus pensamentos novamente, quando notou uma segunda presença na pousada. A alguns metros, um rapaz, quieto e louro, comia sem fazer barulho. A setembrina Maria gostava de observar, e de gente que sabia comer em silêncio. Então veio o dono da pousada e começou a gesticular e apontar para o cardápio, tentando comunicar-se com o tímido hóspede. O rapaz sorriu e gesticulou ainda uma outra coisa que Maria não entendeu. "Deve ser estrangeiro", pensou, divertida, "e está dando trabalho para o pescador".
Resolveu ir até lá, sem saber muito o que ia fazer. Por fim, perguntou ao rapaz (talvez para rir um pouco mais ou fingir que não havia notado que ele era estrangeiro), em português: "Você também vai embora de barco amanhã?", para logo em seguida se arrepender. Lembrou que ele ainda estava comendo e poderia se sentir invadido por aquela nativa inconveniente.
Ele então sorriu e depositou o garfo na mesa, finalizando a refeição: "aah.. english?"
Começaram a conversar. O pescador, como de hábito, desligou cedo o gerador e disse que ia fechar também a cozinha. O rapaz era tão urbanóide quanto Maria e os dois, únicos habitantes acordados da ilha, não tinham um pingo de sono àquela hora. Resolveram sentar um pouco mais perto do mar, carregando copos.
Maria notou que o rapaz usava meias, mesmo na areia. "Frio nos pés?", riu consigo mesma, mas não disse nada.
Sentou-se abraçando as pernas, ao lado do rapaz, que esparramou-se na orla, e ficaram falando de mil coisas. Ele morava a cinco horas de fuso horário de distância. Ela, a umas dez horas de carro daquele lugar. Eram estranhos, mas - talvez porque sabiam que jamais se encontrariam de novo - conversaram de tudo, da vida, dos amores, de objetivos. Ele falou da mãe, que ela ia gostar de conhecer. Ela falou de um lugar de águas quentes onde adoraria levá-lo. Ele contou que se arrependia de ter batido em um colega, numa festa. Ela contou que morria de medo de brigar, mas um tapa desferido uma vez a uma garota havia sido merecido. Riram e ela fez uma daquelas piadas de humor negro. Ele não entendeu, ela ficou sem graça, mas seguiram os dois únicos falantes daquele pedaço de terra.
Ela estremeceu - de frio ou ansiedade? nunca sabe, e isso ocorre em raras ocasiões desde seus 14 anos - quando ele se aproximou para pegar sua mão e apontar uma estrela. As estrelas eram infinitamente mais brilhantes e abundantes lá, e ela errou diversas vezes ao tentar mostrá-lo o Cruzeiro do Sul.
O estranho sugeriu, então, um mergulho. "Um mergulho? À noite?", escandalizou-se a comportada Maria. Ele foi tão natural que ela não teve escolha. Mergulharam.
Maria sempre tivera a sensação de que alguma criatura surgiria de qualquer água onde nadasse à noite. Mas naquele dia, não.
Fazia aquele frio estranho de setembro, que gela um pouco os dedos e o peito de Maria, e ela não queria molhar o cabelo, porque depois teria o trabalho de secar e poderia pegar uma gripe.
Ele não deu a mínima importância a isso e empurrou a moça de cima de uma das pedras que ficavam submersas quando a maré subia. Ela escandalizou-se uma vez, passando a mão nos cabelos já ensopados, e os dois riram.
Ele subiu novamente na pedra submersa, de onde a água passava do peito para a cintura. Ela subiu também e tiritou um pouco (ainda sem saber o quê realmente lhe fazia tiritar).
Ele parou a conversação e as risadas e os dois estavam frente a frente. Ela olhou para baixo, ficando de cara com o peito dele, sem saber o que fazer. Então surgiu nela uma vontade de saber qual era a textura de sua pele e, por isso, subiu as mãos e roçou, como se fosse sem querer, os braços do estrangeiro. Ele ficou parado e comentou algo sobre romantismo. Ela ficou subitamente tímida e confusa, e pulou novamente para a água.
*
Sentada no banco duro, ao lado de outros dois passageiros, com a cabeça encostada na parede de madeira, Maria percebia o barco se afastando da ilha. O sol esquentava a pequena embarcação e trazia sonolência. O balanço e o calor entorpeciam-na. O rapaz estava em pé sobre a areia e acenava, ficando cada vez menor e menor e menor. Ela dormiu pouco tempo depois e sonhou que lhe entregava a concha alaranjada.
Descobriu um lugarejo numa ilha, incrustado no meio das pedras e da areia. Construído com madeira, longe de tudo, o dono era pescador e cobrou baratinho. Era lá mesmo.
Maria botou meia dúzia de roupas leves na mala, pegou um barco que deu a maior volta para chegar lá e desembarcou no local.
Não esperava tanta rusticidade - olhou em volta e havia, além da pousada, uma igreja evangélica caindo aos pedaços e um pequeno grupo de casebres de pescadores. A urbana Maria ficou cheia de areia no tênis e no jeans que vestia ao descer do barco e caminhar até seu quarto, pois não havia asfalto. Perfeito.
O sol apareceu por trás das nuvens e surpreendeu o tedioso clima "setembrino", que Maria esperava chegar todos os anos.
Despiu-se das preocupações, da internet viciante, do celular e das entrevistas de emprego e deitou na areia.
Bronzeou os braços e o colo numa canoa. Remou pela primeira vez na vida e mergulhou perto de paredes de corais e em si mesma por um tempo.
Normalmente, odeia vento. Mas permitiu-se gostar daquele vento, daquele pedaço do mundo onde era ainda melhor ter os cabelos despenteados.
Caminhou na mata que se estendia infinitamente atrás das casas de pescadores, revelando uma sequência interminável de outras praias.
Ficou em silêncio por dias, um silêncio confortável que era facilmente preenchido por ruídos que não incomodavam. Pássaros, barcos, risadas de pescadores, água batendo em pedra.
Catou uma concha alaranjada, bonita, que o mar jogou aos seus pés enquanto andava pela orla num fim de tarde. Pensou em alguém que mereceria aquela concha. Pensou que seria romântico dá-la a alguém. "Ninguém", decidiu-se, e guardou na mochila.
Em sua última noite no paraíso, Maria jantou cedo a comida feita pela esposa do pescador, que consistia em peixe (inteiro, com olhos entumescidos e espinha), arroz, salada e no melhor feijão que havia provado na vida.
À noite, os pescadores usavam um gerador que iluminava apenas as casas e o mar ficava negro, revelando sua imponente presença através dos barulhos e de pequenos reflexos que a tímida lua setembrina doava, às vezes.
Um grupo de jovens pescadores passou enquanto a solitária Maria sentava num degrau, após o jantar, e bebia alguma coisa de coco. Carregavam redes e iam dormir. Maria pensou que talvez nunca tivesse conseguido dormir tão cedo, rindo intimamente, e olhou de soslaio para um dos pescadores que a havia praticamente comido com os olhos mais cedo, quando ela ainda estava de biquíni. A moça achou graça.
Três segundos depois, já estava imersa em seus pensamentos novamente, quando notou uma segunda presença na pousada. A alguns metros, um rapaz, quieto e louro, comia sem fazer barulho. A setembrina Maria gostava de observar, e de gente que sabia comer em silêncio. Então veio o dono da pousada e começou a gesticular e apontar para o cardápio, tentando comunicar-se com o tímido hóspede. O rapaz sorriu e gesticulou ainda uma outra coisa que Maria não entendeu. "Deve ser estrangeiro", pensou, divertida, "e está dando trabalho para o pescador".
Resolveu ir até lá, sem saber muito o que ia fazer. Por fim, perguntou ao rapaz (talvez para rir um pouco mais ou fingir que não havia notado que ele era estrangeiro), em português: "Você também vai embora de barco amanhã?", para logo em seguida se arrepender. Lembrou que ele ainda estava comendo e poderia se sentir invadido por aquela nativa inconveniente.
Ele então sorriu e depositou o garfo na mesa, finalizando a refeição: "aah.. english?"
Começaram a conversar. O pescador, como de hábito, desligou cedo o gerador e disse que ia fechar também a cozinha. O rapaz era tão urbanóide quanto Maria e os dois, únicos habitantes acordados da ilha, não tinham um pingo de sono àquela hora. Resolveram sentar um pouco mais perto do mar, carregando copos.
Maria notou que o rapaz usava meias, mesmo na areia. "Frio nos pés?", riu consigo mesma, mas não disse nada.
Sentou-se abraçando as pernas, ao lado do rapaz, que esparramou-se na orla, e ficaram falando de mil coisas. Ele morava a cinco horas de fuso horário de distância. Ela, a umas dez horas de carro daquele lugar. Eram estranhos, mas - talvez porque sabiam que jamais se encontrariam de novo - conversaram de tudo, da vida, dos amores, de objetivos. Ele falou da mãe, que ela ia gostar de conhecer. Ela falou de um lugar de águas quentes onde adoraria levá-lo. Ele contou que se arrependia de ter batido em um colega, numa festa. Ela contou que morria de medo de brigar, mas um tapa desferido uma vez a uma garota havia sido merecido. Riram e ela fez uma daquelas piadas de humor negro. Ele não entendeu, ela ficou sem graça, mas seguiram os dois únicos falantes daquele pedaço de terra.
Ela estremeceu - de frio ou ansiedade? nunca sabe, e isso ocorre em raras ocasiões desde seus 14 anos - quando ele se aproximou para pegar sua mão e apontar uma estrela. As estrelas eram infinitamente mais brilhantes e abundantes lá, e ela errou diversas vezes ao tentar mostrá-lo o Cruzeiro do Sul.
O estranho sugeriu, então, um mergulho. "Um mergulho? À noite?", escandalizou-se a comportada Maria. Ele foi tão natural que ela não teve escolha. Mergulharam.
Maria sempre tivera a sensação de que alguma criatura surgiria de qualquer água onde nadasse à noite. Mas naquele dia, não.
Fazia aquele frio estranho de setembro, que gela um pouco os dedos e o peito de Maria, e ela não queria molhar o cabelo, porque depois teria o trabalho de secar e poderia pegar uma gripe.
Ele não deu a mínima importância a isso e empurrou a moça de cima de uma das pedras que ficavam submersas quando a maré subia. Ela escandalizou-se uma vez, passando a mão nos cabelos já ensopados, e os dois riram.
Ele subiu novamente na pedra submersa, de onde a água passava do peito para a cintura. Ela subiu também e tiritou um pouco (ainda sem saber o quê realmente lhe fazia tiritar).
Ele parou a conversação e as risadas e os dois estavam frente a frente. Ela olhou para baixo, ficando de cara com o peito dele, sem saber o que fazer. Então surgiu nela uma vontade de saber qual era a textura de sua pele e, por isso, subiu as mãos e roçou, como se fosse sem querer, os braços do estrangeiro. Ele ficou parado e comentou algo sobre romantismo. Ela ficou subitamente tímida e confusa, e pulou novamente para a água.
*
Sentada no banco duro, ao lado de outros dois passageiros, com a cabeça encostada na parede de madeira, Maria percebia o barco se afastando da ilha. O sol esquentava a pequena embarcação e trazia sonolência. O balanço e o calor entorpeciam-na. O rapaz estava em pé sobre a areia e acenava, ficando cada vez menor e menor e menor. Ela dormiu pouco tempo depois e sonhou que lhe entregava a concha alaranjada.
25.7.06
O balé da cozinha
Os personagens também pensam, além de tudo, sabe
Não são apenas bonecos jogados ali por mim, o grande Deus que congela aqui suas cenas e suas personalidades a meu bel-prazer.
Muita coisa que eles pensam eu sei, outras não - não entendo a maioria delas, anyway.
Pensam sem parar enquanto executam seu balé diário na cozinha
Com o cuidado de não se esbarrarem e esbarrarem nos móveis.
Agonizam por dentro, o cenho franzido
Se fizeram certo, se fizeram tudo que poderiam ter feito
Na verdade não, pensam também, a culpa é do um ou do outro
Faltou Deus, ou faltou coragem, se perguntam.
O primeiro pensa fumando, fumando sem parar.
O segundo pára, como se estivesse sereno, com as mãos cruzadas na frente, coluna torna e olhar denso sob o óculos de modelo antiquado.
O terceiro olha para o chão, morde os lábios que às vezes até sai sangue, e evita falar sobre o assunto.
Mas pensam, articulando a dança absurda-normal do dia-a-dia.
Não são apenas bonecos jogados ali por mim, o grande Deus que congela aqui suas cenas e suas personalidades a meu bel-prazer.
Muita coisa que eles pensam eu sei, outras não - não entendo a maioria delas, anyway.
Pensam sem parar enquanto executam seu balé diário na cozinha
Com o cuidado de não se esbarrarem e esbarrarem nos móveis.
Agonizam por dentro, o cenho franzido
Se fizeram certo, se fizeram tudo que poderiam ter feito
Na verdade não, pensam também, a culpa é do um ou do outro
Faltou Deus, ou faltou coragem, se perguntam.
O primeiro pensa fumando, fumando sem parar.
O segundo pára, como se estivesse sereno, com as mãos cruzadas na frente, coluna torna e olhar denso sob o óculos de modelo antiquado.
O terceiro olha para o chão, morde os lábios que às vezes até sai sangue, e evita falar sobre o assunto.
Mas pensam, articulando a dança absurda-normal do dia-a-dia.
24.7.06
Com azeite, porque o colesterol andava alto
Hoje ele chegou em casa pela última vez
Comeu o pão com presunto e queijo
Pela última vez
Deu aquele beijo de lábios secos e sem emoção na bochecha indiferente.
Nada de novo - largou a chave em qualquer lugar
Sorriu, andou pela casa perguntando sobre o dia de sempre
Abriu a geladeira para pensar
Meditou sobre o presunto e o queijo - se estavam estragados ou comíveis
Decidiu-se pelo "comíveis" e comeu com pão e azeite, porque o colesterol andava alto.
A dona das bochechas indiferentes levantou uma sobrancelha, de sempre
Comentou sobre o tempo, o Líbano, as contas
"Vai sujar o chão de farelo"
Só que, pela última vez.
*
Escolheu um apartamento na zona nobre da cidade
Um alívio que vai ser, pra ele
pegou as malas
beijou a filha
e se foi.
Comeu o pão com presunto e queijo
Pela última vez
Deu aquele beijo de lábios secos e sem emoção na bochecha indiferente.
Nada de novo - largou a chave em qualquer lugar
Sorriu, andou pela casa perguntando sobre o dia de sempre
Abriu a geladeira para pensar
Meditou sobre o presunto e o queijo - se estavam estragados ou comíveis
Decidiu-se pelo "comíveis" e comeu com pão e azeite, porque o colesterol andava alto.
A dona das bochechas indiferentes levantou uma sobrancelha, de sempre
Comentou sobre o tempo, o Líbano, as contas
"Vai sujar o chão de farelo"
Só que, pela última vez.
*
Escolheu um apartamento na zona nobre da cidade
Um alívio que vai ser, pra ele
pegou as malas
beijou a filha
e se foi.
14.6.06
Fragmentos
E: You´re a good person.
G: What???
E: Good person.
G: This accent of yours is terrible. I understand about 70% of the things you say. Can you spell it?
E: G-O-O-D P-E-R-S-O-N.
G: Aaah...
G: What do you do for living?
E: I travel.
G: Huh??
E: I spend some months here and there, working and making some money, then I travel again.
G: Wow. Where are you going next, then?
E: Peru, Argentina. Then Australia.
G: When will you be back home?
E: Perhaps in two years.
G: Awesome.
G: Just leave it. It is my virginty belt.
E: Oh - you´re a virgin.
G: Do I look like one?
E: I don´t know. Are you? I don´t know!
E: Ok, honey, pack your stuff... why did you bring this?
G: Honey... (sorriso)
E: What?
G: No one ever called me "honey" before.
E: Ok, just pack your stuff...
E: Yesterday was something...
G: Something?
E: I think I won´t forget it ever. The sunshine over the beach...
G: Sunrise, baby.
E: Yeah, sunrise...
G: It is not everyday that we see the sunrise on the beach...
E: Yeah.
(Intense and direct green eyes. It was also nice to meet him... and this is all she can remember)
G: What???
E: Good person.
G: This accent of yours is terrible. I understand about 70% of the things you say. Can you spell it?
E: G-O-O-D P-E-R-S-O-N.
G: Aaah...
G: What do you do for living?
E: I travel.
G: Huh??
E: I spend some months here and there, working and making some money, then I travel again.
G: Wow. Where are you going next, then?
E: Peru, Argentina. Then Australia.
G: When will you be back home?
E: Perhaps in two years.
G: Awesome.
G: Just leave it. It is my virginty belt.
E: Oh - you´re a virgin.
G: Do I look like one?
E: I don´t know. Are you? I don´t know!
E: Ok, honey, pack your stuff... why did you bring this?
G: Honey... (sorriso)
E: What?
G: No one ever called me "honey" before.
E: Ok, just pack your stuff...
E: Yesterday was something...
G: Something?
E: I think I won´t forget it ever. The sunshine over the beach...
G: Sunrise, baby.
E: Yeah, sunrise...
G: It is not everyday that we see the sunrise on the beach...
E: Yeah.
(Intense and direct green eyes. It was also nice to meet him... and this is all she can remember)
2.6.06
No Peru
O assunto desta semana é o Peru. Perú "con tilde" é só no Peru mesmo, segundo a Wikipedia, "espanholização" da grafia absolutamente desnecessária no Brasil.
Então, às vezes estou entrevistando umas pessoas e morro de vontade de dar minha opinião sobre aquele assunto para elas também, de trocar. Mas minha posição de entrevistadora obviamente não permite, e o tempo é escasso, e o foco é outro.
Pensei em juntar uns cacos destas conversas que acabam ficando na gaveta. Converso com muitos estrangeiros e alguns até se interessam pelas coisas do Brasil. Um ex-namorado um dia falou uma das poucas frases que memorizei na vida: the world is way smaller than we think.
Demorei uns meses para entender, mas é incrível conversar com gente que vive no Peru (sem acento), na Colômbia, no gigante EUA, no Irã, e perceber até mesmo uma certa familiaridade de pensamentos, pontos de vista. Descrença em alguns aspectos, esperança em outros.
Ontem senti pena dos peruanos e me deu vontade de alertar: olha, não vai adiantar nada, no Brasil aconteceu a mesma coisa e vocês não sabem. O sistema, a cultura, a história, essas eleições não vão adiantar nada.
Os peruanos vão às urnas no domingo e a maioria dos votos deve ir para o candidato social-democrata Alan García. Os jornalistas e a classe média peruana vai votar no García como a gente votou no Lula e em tantos outros pensando: "dos males, o menor".
Um pouco absurdo votar assim, mas na América Latina é o que dá pra fazer. García matou 60 mil pessoas nos anos 80, levou o país à falência, inflacionou o mercado a 3.000% e é o menor dos males.
Seu oponente, Ollanta Humala assusta a "burguesia" peruana, por sua proximidade de ideais a Chávez e ao indígena da Bolívia. Seu maior ídolo é um dos tantos ditadores que o país teve no poder.
Então ontem o professor falou: "vamos a votar en García tapando la nariz". A colônia tem raízes tão profundas que 16 milhões de eleitores no Peru vão acabar fazendo isto mesmo, e eu talvez o fizesse, como já o fiz aqui. Contive meus comentários.
Então, às vezes estou entrevistando umas pessoas e morro de vontade de dar minha opinião sobre aquele assunto para elas também, de trocar. Mas minha posição de entrevistadora obviamente não permite, e o tempo é escasso, e o foco é outro.
Pensei em juntar uns cacos destas conversas que acabam ficando na gaveta. Converso com muitos estrangeiros e alguns até se interessam pelas coisas do Brasil. Um ex-namorado um dia falou uma das poucas frases que memorizei na vida: the world is way smaller than we think.
Demorei uns meses para entender, mas é incrível conversar com gente que vive no Peru (sem acento), na Colômbia, no gigante EUA, no Irã, e perceber até mesmo uma certa familiaridade de pensamentos, pontos de vista. Descrença em alguns aspectos, esperança em outros.
Ontem senti pena dos peruanos e me deu vontade de alertar: olha, não vai adiantar nada, no Brasil aconteceu a mesma coisa e vocês não sabem. O sistema, a cultura, a história, essas eleições não vão adiantar nada.
Os peruanos vão às urnas no domingo e a maioria dos votos deve ir para o candidato social-democrata Alan García. Os jornalistas e a classe média peruana vai votar no García como a gente votou no Lula e em tantos outros pensando: "dos males, o menor".
Um pouco absurdo votar assim, mas na América Latina é o que dá pra fazer. García matou 60 mil pessoas nos anos 80, levou o país à falência, inflacionou o mercado a 3.000% e é o menor dos males.
Seu oponente, Ollanta Humala assusta a "burguesia" peruana, por sua proximidade de ideais a Chávez e ao indígena da Bolívia. Seu maior ídolo é um dos tantos ditadores que o país teve no poder.
Então ontem o professor falou: "vamos a votar en García tapando la nariz". A colônia tem raízes tão profundas que 16 milhões de eleitores no Peru vão acabar fazendo isto mesmo, e eu talvez o fizesse, como já o fiz aqui. Contive meus comentários.
23.5.06
Tu nombre
Prefácio da poesia: Tenho poucas poesias e, menos ainda, poesias que não jogo no lixo depois. Tenho vergonha de escrever e muita coisa escrevo, guardo ou jogo fora. Gaveta. Mas esta aí foi uma de que gostei, talvez a única em anos que tenho coragem de mostrar. Ela foi criada em um contexto - faz uns dois meses? - engraçado. Eu, na sala de espera do reitor da Federal, comendo o biscoito roubado de um coffee break e esperando meu entrevistado. Nada pra fazer, pauta pronta. Olhei pro papel em branco do bloco no meu colo e pensei: será que consigo fazer uma poesia-relâmpago? Só que tinha que ser em espanhol. Sem corrigir nada. Parida! Queria compartir.
Tu nombre
Tu nombre me acuerda
Café, deseos y resistencia
Resistí, y todavía intento
Resistir a tus encantos.
Pero cuando pienso que ahora
Estoy inmune
Tu nombre siempre me acuerda.
Carícias, besos y tu sonrisa.
Me rendí y todavía quería renderme
A tus encantos.
Pero me acuerdo
Que no eres mío, que estás lejos.
El hotel, poesía y fragilidad
Tus flaquezas y tu fuerza
Me impactó y todavía me sorprende
E intento olvidarme que existes
Y que estás lejos.
Pero tu nombre siempre
me acuerda.
Tu nombre
Tu nombre me acuerda
Café, deseos y resistencia
Resistí, y todavía intento
Resistir a tus encantos.
Pero cuando pienso que ahora
Estoy inmune
Tu nombre siempre me acuerda.
Carícias, besos y tu sonrisa.
Me rendí y todavía quería renderme
A tus encantos.
Pero me acuerdo
Que no eres mío, que estás lejos.
El hotel, poesía y fragilidad
Tus flaquezas y tu fuerza
Me impactó y todavía me sorprende
E intento olvidarme que existes
Y que estás lejos.
Pero tu nombre siempre
me acuerda.
19.5.06
Os amores pós-modernos de novo.
Os amores pós-modernos de novo. Uma loucura de vida, faculdade-casa-trabalho-casa-balada-faculdade. Cansa e a deixa pensando só-e-somente-só no próprio umbigo, o que ela não acha muito politicamente correto.
Às vezes, está pensando na Luísa obstinadamente e tenta se policiar: preciso pensar nos problemas do mundo. Por quê não faço um trabalho voluntário qualquer? Não dá tempo. Então pensa na Luísa, no João, no Fábio, no Saulo, na Tati.
Queria conhecer a tal da Tati, porque às vezes entra com um perfil falso no Orkut dela e fica tentando imaginar como é essa garota. "Por quê ela é melhor que eu".
Tati: parece ser ingênua, usa quilos de maquiagem, suas fotos todas com maquiagem meio borrada parecendo ressaca. Talvez seja fútil porque usa expressões teenagers no Orkut. Diz que ama seu ex sendo que o conhece há menos de um mês. Talvez seja adolescente demais pra saber o que é amor. "Tomara que se mostre uma chata com o tempo e ele se canse dela". Ou então: "Eu já sabia que isso ia acontecer. Sonhei a história toda meses antes, mas achei que fosse neurose da minha cabeça", ela diz. Deve ser porque a vontade desesperada de amar falava mais alto e loucamente do que os sussurros fracos de sua intuição.
Daí pensa na Luísa de novo (nos intervalos entre João, Fábio, Saulo, seres do sexo masculino que a perturbam noite e dia). Noite passada, diz que sonhou com ela e que estavam amigas. Luísa: Não tem perfil no Orkut, então é mais difícil imaginar. Namora há seis anos, Saulo ("que ódio"), que foi seu primeiro namorado ("inexperiente"). Faculdade de administração ("sem graça"). Mas pensa que Luísa deve ser feliz, estilo dona-de-casa com tudo perfeitinho. Deve ser feliz, achou aquele homem. Paciência.
E a Ciranda de Pedra rolando em sua mente - atrapalha a concetração de tudo. Se seu professor de desenho técnico soubesse, seria mais complacente com os milímetros de cálculos errados.
Às vezes, está pensando na Luísa obstinadamente e tenta se policiar: preciso pensar nos problemas do mundo. Por quê não faço um trabalho voluntário qualquer? Não dá tempo. Então pensa na Luísa, no João, no Fábio, no Saulo, na Tati.
Queria conhecer a tal da Tati, porque às vezes entra com um perfil falso no Orkut dela e fica tentando imaginar como é essa garota. "Por quê ela é melhor que eu".
Tati: parece ser ingênua, usa quilos de maquiagem, suas fotos todas com maquiagem meio borrada parecendo ressaca. Talvez seja fútil porque usa expressões teenagers no Orkut. Diz que ama seu ex sendo que o conhece há menos de um mês. Talvez seja adolescente demais pra saber o que é amor. "Tomara que se mostre uma chata com o tempo e ele se canse dela". Ou então: "Eu já sabia que isso ia acontecer. Sonhei a história toda meses antes, mas achei que fosse neurose da minha cabeça", ela diz. Deve ser porque a vontade desesperada de amar falava mais alto e loucamente do que os sussurros fracos de sua intuição.
Daí pensa na Luísa de novo (nos intervalos entre João, Fábio, Saulo, seres do sexo masculino que a perturbam noite e dia). Noite passada, diz que sonhou com ela e que estavam amigas. Luísa: Não tem perfil no Orkut, então é mais difícil imaginar. Namora há seis anos, Saulo ("que ódio"), que foi seu primeiro namorado ("inexperiente"). Faculdade de administração ("sem graça"). Mas pensa que Luísa deve ser feliz, estilo dona-de-casa com tudo perfeitinho. Deve ser feliz, achou aquele homem. Paciência.
E a Ciranda de Pedra rolando em sua mente - atrapalha a concetração de tudo. Se seu professor de desenho técnico soubesse, seria mais complacente com os milímetros de cálculos errados.
15.3.06
O Perfume
Depois de ter você
Para que querer saber que horas são?
Se é noite ou faz calor
Se estamos no verão
Se o sol virá ou não
Ou pra que é que serve uma canção como essa?
Depois de ter você, poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas?
Para que amendoeiras pelas ruas?
Para que servem as ruas?
Depois de ter você.
*
Agora tenho menos tempo para pensar (que bom). Os dias passam tão cheios que dois parecem cinco e não consigo acreditar que ainda é quarta-feira.
Hoje meu focinho farejou no ar por um segundo um cheiro seu que veio da rua, do cabelo de alguém que provavelmente também usa shampoo de camomila. Um segundo de cheiro, que não sei de onde veio e para onde foi. Continuei farejando o ar à busca de mais uns segundos daquilo, com uma espécie estranha de sede, mas sumiu. Lembrei-me do livro "O Perfume" e quis ser o assassino
que conseguiu apreender para sempre o cheiro amado num frasco que provocou a loucura de Paris.
Para que querer saber que horas são?
Se é noite ou faz calor
Se estamos no verão
Se o sol virá ou não
Ou pra que é que serve uma canção como essa?
Depois de ter você, poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas?
Para que amendoeiras pelas ruas?
Para que servem as ruas?
Depois de ter você.
*
Agora tenho menos tempo para pensar (que bom). Os dias passam tão cheios que dois parecem cinco e não consigo acreditar que ainda é quarta-feira.
Hoje meu focinho farejou no ar por um segundo um cheiro seu que veio da rua, do cabelo de alguém que provavelmente também usa shampoo de camomila. Um segundo de cheiro, que não sei de onde veio e para onde foi. Continuei farejando o ar à busca de mais uns segundos daquilo, com uma espécie estranha de sede, mas sumiu. Lembrei-me do livro "O Perfume" e quis ser o assassino
que conseguiu apreender para sempre o cheiro amado num frasco que provocou a loucura de Paris.
20.1.06
White Magic For Lovers (when all your love has gone away)
Além de "Coisas Belas e Sujas" e "Le Fabuleux Destin d´Amelie Poulain", não gostei muito do outro filme da Audrey Tatou (nem sequer me lembro do nome). Mas - mas, a personagem dela me ensinou uma coisa inédita. Faça assim, se você quiser saber o futuro (às vezes funciona, e mamãe disse que usava isto quando tinha 12 anos e era "batata"). Você olha em volta do seu contexto qualquer e impõe uma condição para uma coisa acontecer que não dependa da sua vontade.
Na rua, por exemplo, olhe em volta e imagine: se aquele rapaz de blusa laranja atravessar a rua antes do senhor bem educado terminar de comprar as flores (é claro que os senhores de hoje em dia raramente compram flores em bonitos mercados nas ruas, mas tudo bem), significa que você vai conseguir o trabalho que realmente quer.
Ou: Se o caminhão que está parado à esquina com o motor ligado começar a andar antes de aquele cachorrinho de madame terminar o seu "toilet" no poste, significa que você vai se casar realmente com o fulano.
Fantástico. Quer dizer. Sei lá. Rs.
Na rua, por exemplo, olhe em volta e imagine: se aquele rapaz de blusa laranja atravessar a rua antes do senhor bem educado terminar de comprar as flores (é claro que os senhores de hoje em dia raramente compram flores em bonitos mercados nas ruas, mas tudo bem), significa que você vai conseguir o trabalho que realmente quer.
Ou: Se o caminhão que está parado à esquina com o motor ligado começar a andar antes de aquele cachorrinho de madame terminar o seu "toilet" no poste, significa que você vai se casar realmente com o fulano.
Fantástico. Quer dizer. Sei lá. Rs.
9.12.05
Na cabeceira
Meu pai está maluco pela Bruna Surfistinha. Recentemente, ele veio me perguntar porquê eu não faço o mesmo que ela (viro puta? não, publico um livro inspirado num blog).
Nem respondi, tenho uma certa preguiça mental de elaborar respostas demasiado longas quando já tenho certeza do que penso. Eu sei que isso é nojento.
De qualquer maneira, gosto do blog dela e confesso que fiquei triste quando ela deixou de ser garota de programa e parou de escrever aquelas sacanagens. Mas fico pensando - eu sei que, muito pretensiosamente - se "O Doce Veneno do Escorpião" é assim realmente uma obra da qual se orgulhar.
Não li nem crítica e nem sequer a orelha do livro, só sei que tem 168 páginas, está na terceira edição e pode ser comprado no Submarino a R$16,80. Bom, muito bom, gosto de livros acessíveis a bolsos como o meu. Sei também que é um "relato sincero sobre a vida e trabalho da autora, incluindo dicas para as mulheres levarem um relacionamento adiante".
Enfim, por ser esse todo o meu conhecimento da obra de Bruna Surfistinha, além de seu blog que eu já li inteiro, sei que é pretensão pura comentar isto, mas não deve ser melhor do que "Cem Escovadas Antes de ir para Cama", daquela italianinha depravada - Melissa Panarello (cuja cena ápice ocorre com seis homens esporrando ao mesmo tempo na cara dela).
Ambos discorrem relatos e mais relatos de tudo aquilo que a gente, no fundo, já sabe (variando as posições, tamanhos e acessórios). Além do mais, a revista Nova, todos os meses, por R$9,00 na banca (se não aumentou...), também ensina como segurar um homem em 20 dicas quentíssimas.
*
Fico também imaginando (falta de assunto para ocupar a cabeça) quem compra os livros da Surfistinha e da italiana safada. Se eu já não tivesse passado dos 20, com certeza compraria (eu me conheço muito bem). Mas quando eu tinha 14 anos, meu livro preferido era "O Diário de Susie". E me lembro perfeitamente da cena mais picante: acontece quando Susie dá um rápido amasso em um carinha, na casa onde trabalhava como baby-sitter (tipo beijo na boca e mão na bunda). Li e reli essa cena não sei quantas vezes, sempre para recordar a emoção da primeira vez. E este foi um BOM livro.
Nem respondi, tenho uma certa preguiça mental de elaborar respostas demasiado longas quando já tenho certeza do que penso. Eu sei que isso é nojento.
De qualquer maneira, gosto do blog dela e confesso que fiquei triste quando ela deixou de ser garota de programa e parou de escrever aquelas sacanagens. Mas fico pensando - eu sei que, muito pretensiosamente - se "O Doce Veneno do Escorpião" é assim realmente uma obra da qual se orgulhar.
Não li nem crítica e nem sequer a orelha do livro, só sei que tem 168 páginas, está na terceira edição e pode ser comprado no Submarino a R$16,80. Bom, muito bom, gosto de livros acessíveis a bolsos como o meu. Sei também que é um "relato sincero sobre a vida e trabalho da autora, incluindo dicas para as mulheres levarem um relacionamento adiante".
Enfim, por ser esse todo o meu conhecimento da obra de Bruna Surfistinha, além de seu blog que eu já li inteiro, sei que é pretensão pura comentar isto, mas não deve ser melhor do que "Cem Escovadas Antes de ir para Cama", daquela italianinha depravada - Melissa Panarello (cuja cena ápice ocorre com seis homens esporrando ao mesmo tempo na cara dela).
Ambos discorrem relatos e mais relatos de tudo aquilo que a gente, no fundo, já sabe (variando as posições, tamanhos e acessórios). Além do mais, a revista Nova, todos os meses, por R$9,00 na banca (se não aumentou...), também ensina como segurar um homem em 20 dicas quentíssimas.
*
Fico também imaginando (falta de assunto para ocupar a cabeça) quem compra os livros da Surfistinha e da italiana safada. Se eu já não tivesse passado dos 20, com certeza compraria (eu me conheço muito bem). Mas quando eu tinha 14 anos, meu livro preferido era "O Diário de Susie". E me lembro perfeitamente da cena mais picante: acontece quando Susie dá um rápido amasso em um carinha, na casa onde trabalhava como baby-sitter (tipo beijo na boca e mão na bunda). Li e reli essa cena não sei quantas vezes, sempre para recordar a emoção da primeira vez. E este foi um BOM livro.
Conselho
"(...) Sua amável carta (...) não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo -, peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. (...) Procure entrar em si mesmo, investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: 'sou mesmo forçado a escrever?'. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples 'sou', então construa a sua vida de acordo com essa necessidade".
Trecho de "Cartas a um jovem poeta" - Rainer Maria Rilke. Essa é uma parte da primeira carta que Rilke responde ao então jovem escritor Franz Xavier Kappus.
*
A gente tenta escrever bonito, pros outros verem. Muita gente no mundo já falou de sentimentos nobres, temas sublimes, amores eternos - e foi bonito, publicado, aplaudido. Só que você tem que ser muito bom para falar destes mesmos temas de novo. Por isso talvez seja melhor olhar para dentro um pouco, e em volta, para escrever. Deve haver alguma beleza no dia-a-dia ordinário. Estou tentando achar, sabe, o que me inspira. Amor inspira, mas me sinto tão repetitiva por causa dele. Por enquanto só sei que, àquela pergunta de Rilke, respondo: "sou".
Trecho de "Cartas a um jovem poeta" - Rainer Maria Rilke. Essa é uma parte da primeira carta que Rilke responde ao então jovem escritor Franz Xavier Kappus.
*
A gente tenta escrever bonito, pros outros verem. Muita gente no mundo já falou de sentimentos nobres, temas sublimes, amores eternos - e foi bonito, publicado, aplaudido. Só que você tem que ser muito bom para falar destes mesmos temas de novo. Por isso talvez seja melhor olhar para dentro um pouco, e em volta, para escrever. Deve haver alguma beleza no dia-a-dia ordinário. Estou tentando achar, sabe, o que me inspira. Amor inspira, mas me sinto tão repetitiva por causa dele. Por enquanto só sei que, àquela pergunta de Rilke, respondo: "sou".
26.9.05
Ainda bem que tenho pessoas que escrevem por mim quando não posso / não quero / não consigo escrever / dizer / expressar. Neruda.
PS: Isso é uma quase cópia do Roger, que me fez lembrar que gosto de Neruda. =)
"Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.
Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.
Amo el amor que se reparte
en besos, leche y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse
para volver amar.
Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va."
PS: Isso é uma quase cópia do Roger, que me fez lembrar que gosto de Neruda. =)
"Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.
Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.
Amo el amor que se reparte
en besos, leche y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse
para volver amar.
Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va."
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